‘Menti’, afirma principal testemunha de matança em Osasco

  • 1 de novembro de 2017
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Em carta, ela narra coação por autoridades. Promotor nega e SSP apura

Carta escrita por testemunha da chacina de Osasco que deixou 18 mortos em agosto de 2015 abriu mais um episódio no caso. Protegida no processo sob o pseudônimo de Gama e considerada importante na acusação, ela afirma, em texto endereçado à Corregedoria da PM, que mentiu no depoimento à Polícia Civil e diz que foi ameaçada pelo delegado e pelo promotor do caso para que levasse as acusações adiante.

Primeira página da carta

Primeira página da carta – Reprodução

“Um valor de R$ 50.000 cegou meus olhos”, afirma a testemunha na carta, obtida com exclusividade pelo R7, dando a entender que estava interessada em receber o prêmio de R$ 50 mil oferecido pelo governo a quem levasse a polícia aos assassinos. No manuscrito de duas páginas, datado de 11 de outubro e assinado com firma reconhecida em cartório, ela acrescenta três zeros ao valor real.

Na época, o caso teve grande repercussão, e a cúpula da Secretaria de Estado da Segurança Pública cobrava uma resposta rápida dos policiais que investigavam a matança. O ministro do STF Alexandre de Moraes, então secretário da Segurança, acompanhou as apurações de perto.

Embora a testemunha não tenha comparecido ao júri do caso, seu depoimento à Polícia Civil foi explorado pelo promotor Marcelo Alexandre de Oliveira no julgamento que levou à condenação dos policiais militares Thiago Henklain e Fabrício Emmanuel Eleutério e do guarda-civil Sérgio Manhanhã.

Segunda página da carta

Segunda página da carta – Reprodução

Parente da mulher de Henklain, a testemunha havia narrado à polícia que, durante um almoço de família pouco depois da chacina, ouviu a avó do PM comentar que, na noite do crime, ele chegou em casa tarde e agitado. A testemunha também havia relatado ter presenciado uma briga entre Henklain e a mulher, que o teria reconhecido por causa de uma blusa em imagens de câmeras de segurança que passaram na televisão mostrando o momento da matança.

Na carta à Corregedoria da PM, a testemunha afirma que, além do prêmio oferecido pelo governo, decidiu fazer uma falsa denúncia contra Henklain devido a um suposto desentendimento entre o policial e um familiar. “Sem pensar quis prejudica-lo [sic]”, diz o texto.

Nome em plenário

A testemunha afirma ainda no texto que, quando tentou recuar do depoimento, o delegado Andreas Schiffmann, do Setor de Homicídios de Carapicuíba, o levou “quase obrigado” ao Fórum de Osasco para conversar com promotor Oliveira.

“Se você não colaborar vou jogar [revelar] teu nome no plenário aí não vai ser mais a polícia atrás de você para ajudar e sim os amigos assassinos do Thiago [Henklain] [sic]”, teria dito o promotor, segundo a narrativa da testemunha.

Além da ameaça de expor o nome no plenário, a testemunha afirma que Schiffmann e Oliveira “falsificaram” sua assinatura. “Fiquei com medo mas não quis continuar com a mentira”, escreveu. “Foi aí que no dia do julgamento dr. Marcelo cumpriu com a ameaça.”

Durante o júri, o promotor citou o nome da testemunha no momento em que Henklain era interrogado.

“Estou disposto a pagar pelo meu erro espero que eles paguem pelos deles de colocar minha vida em risco [sic]”, finaliza a testemunha.

 Promotor nega ameaças

Procurado pela reportagem, o promotor Oliveira afirmou que não teve acesso à carta, mas negou ter ameaçado a testemunha. “Isso não foi feito. Em momento algum nós o pressionamos. Não houve ameaça, nem constrangimento”, afirmou. Oliveira disse que, para convencer a testemunha, utilizou argumentos “jurídicos e éticos“.

O promotor ressaltou que poderia ter levado a testemunha à força para depor e não o fez. “Poderíamos tê-lo levado coercitivamente e não o fizemos.”

Oliveira disse ainda que, apesar de ter citado o nome da testemunha em plenário, não revelou ao público que ela seria a testemunha Gama. Isso foi feito apenas para os jurados, por escrito. “Fiz isso para enfatizar a eles que essa testemunha era uma pessoa próxima ao policial.”

Ele diz ainda ter ouvido da testemunha que temia ser morta por colegas dos acusados. O promotor afirma também que a testemunha pode ter voltado atrás após pressão de parentes. “Ele pode estar sendo responsabilizado pela família inteira, mas ninguém ia inventar uma história dessa.”

Questionados sobre as acusações feitas pela testemunha, o Ministério Público não se manifestou.

Secretaria apura

R7 procurou, na manhã desta quarta-feira (1º), o delegado Schiffmann, na delegacia de Embu das Artes, onde está lotado atualmente. Ele, no entanto, não retornou as ligações. A reportagem também solicitou entrevista com o delegado à Secretaria de Estado da Segurança Pública, mas não obteve resposta.

Em nota, a pasta afirmou que “a Corregedoria da Polícia Militar recebeu a referente carta e a encaminhou para ciência e deliberação do Ministério Público”. A pasta acrescentou ainda que “a Corregedoria da Polícia Civil, ciente aos fatos instaurou procedimento para apurar à denúncia.”

A secretaria disse ainda “que não compactua com qualquer desvio de conduta e ressalta que todas as denúncias contra policiais, civis ou militares, são rigorosamente investigadas pelas respectivas Corregedorias. Se comprovada as irregularidades apontadas, os responsáveis podem ser penalizados civil e criminalmente.”

Defesa estuda recorrer

O advogado Fernando Capano, que defende Henklain, afirma que não teve acesso à carta e que, se o depoimento for formalizado, vai analisar se entra com um recurso sobre esse novo fato.

O advogado diz também que já recorreu sobre o que chamou de falhas técnicas no julgamento. Segundo ele, seria impossível que o PM estivesse em mais de um lugar em que mortes aconteceram ao mesmo tempo.

Alvaro Magalhães e Giorgia Cavicchioli, para o portal R7*

*Colaborou Peu Araújo, do R7