Dois anos após chacina, sobrevivente luta para reconstruir sua vida

  • 10 de agosto de 2017
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Dois anos após a chacina que matou 17 pessoas em Osasco e Barueri, um sobrevivente e familiares dos mortos lutam para reconstruir suas vidas. No próximo dia 18 de setembro, três PMs e um guarda-civil serão julgados pelo banho de sangue

Ele anda com dificuldades, só se alimenta de líquidos e vive com o benefício de um salário-mínimo da Previdência Social por não conseguir mais exercer a sua atividade profissional.

O ex-pintor Amauri (ele não quer divulgar o sobrenome com medo de represália) é um dos sobreviventes da chacina de Osasco e Barueri, que há exatos dois anos deixou 17 mortos na grande São Paulo.

“Minha vida acabou naquela noite junto com os meus companheiros que morreram naquele bar”, disse Amauri, na semana passada. “É como se o relógio tivesse parado e minha vida, estagnada.”

Naquela quinta-feira de 2015, Amauri tinha voltado do serviço e parado no Bar do Juvenal, onde costumava tomar umas cervejas antes de ir para casa. “Passei na padaria, pedi pães e, enquanto esperava a próxima fornada, parei no bar”, contou. “Estava cansado e acabei dormindo sentado. Só soube o que aconteceu 75 dias depois, quando saí da UTI e me contaram.”

Amauri foi o terceiro a ser baleado por pelo menos seis homens que entraram encapuzados no bar. Ao todo, 10 pessoas foram baleadas ali e oito morreram. Depois, o mesmo grupo teria ido a outros locais e causado mais nove mortes, segundo a polícia.

O motivo seria vingar as mortes de um PM no dia 7 daquele mês e de um guarda-civil em 12 de agosto, um dia antes. Na ocasião, o governo do estado montou uma força-tarefa para investigar o caso. Foram ouvidos mais de 60 PMs suspeitos e acabaram indiciados três deles, mais um guarda-civil metropolitano, que agora vão ser julgados por um júri popular no próximo dia 18 de setembro.

O Bar do Juvenal, palco da maioria das mortes, permaneceu fechado na última semana, em forma de protesto contra a chacina. Na porta, está escrito: “Osasco pede paz”. Sexta-feira, familiares de vítimas fizeram uma marcha de protesto na Avenida Paulista. Até agora ninguém foi indenizado pelo Estado.

Medo domina a vida de familiares e envolvidos

Todos os dias, a dona de casa Rosalba da Silva tem uma sensação estranha no começo da noite. “Parece que o Igor vai entrar pela porta, como fazia todos os dias”, confidenciou.

Igor Silva Oliveira, de 19 anos, era ajudante-geral na USP (Universidade de São Paulo) e, naquela quinta-feira, 13 de agosto de 2015, resolveu parar num bar próximo a sua casa para ver um jogo de futebol pela televisão, antes de dormir. Por volta das 22h, homens encapuzados encostaram um carro na porta e já desceram atirando. O jovem e um companheiro que tomava cerveja com ele, Jonas Soares, 33 anos, morreram na hora.

“Vieram me avisar em casa e, quando cheguei no bar, meu menino já estava morto, não respirava mais”, lembrou Rosalba, na semana passada. “Não acreditava que era ele que estava ali caído. Muito triste ver um filho daquele jeito.”

Quando prenderam policiais militares suspeitos pelas mortes, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo entrou com um pedido de indenização do Estado para as famílias das vítimas. “Até agora não recebemos nada e só ficou daquela noite o medo em nossos corações”, disse Rosalba.

Medo é também a palavra que domina a vida do comerciante Newton Ribeiro, dono do bar onde Igor e Jonas estavam quando foram mortos.

“Naquela noite eu me escondi atrás do balcão para também não ser morto”, recorda Newton. “Segurei um crucifixo que levo no peito e rezei. Mas não posso dizer que tive vida depois daquele dia. Minha vida acabou ali.”

Newton conta que sobrevive às custas de remédio e todos os dias, quando vai anoitecendo, seu coração dispara. “Parece que aquilo vai acontecer de novo”, afirma. “E o medo toma conta da gente mais uma vez.”

Defesa alega falta de provas para incriminar

O Tribunal do Júri, marcado para o próximo dia 18 de setembro, corre o risco de absolver os quatro acusados por falta de provas e deixar impunes os possíveis responsáveis pela morte de 17 pessoas, em 13 de agosto de 2015, em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo.

 A afirmação acima é do advogado Fernando Capano, que defende o policial militar Thiago Henklain, um dos acusados. “O inquérito policial do caso não chega a lugar nenhum”, disse Capano. “Talvez tenha sido concluído precipitadamente para dar uma satisfação à sociedade.”

Sobre seu cliente, o advogado salienta que a única prova é uma testemunha que alega ter ouvido uma conversa entre Henklain e sua mulher, na qual teria admitido a participação nos homicídios. “Não creio que os jurados vão acreditar em provas tão frágeis”, disse. Os outros acusados, os PMs Fabrício Eleutério e Victor Cristilder, e o GCM Sergio Manhanhã, também negam participação. Os quatro estão presos, mas nenhum foi expulso de suas corporações.

Já o promotor Marcelo Oliveira garante estar convicto da culpa dos quatro acusados. “Eles estão envolvidos até o pescoço no crime”, disse. “Ao contrário do que diz o advogado, o inquérito foi bem feito. Ouviram todo um batalhão para se chegar a esses acusados pelas incoerências e provas testemunhais.”

No caso da pessoa que acusa Henklain, o promotor afirma que não é uma testemunha qualquer. “Trata-se de um parente do acusado, e isso tem um peso”, afirmou. “Essa foi uma investigação difícil, já que eles são policiais e sabem não deixar pistas, mas chegou-se a um resultado.”

A juíza Élia Kinosita Bulman, da Vara do Júri e das Execuções Criminais de Osasco, quando aceitou a denúncia do Ministério Público contra os quatro réus, disse que há elementos suficientes nos autos que comprovam a participação dos mesmos.

“Os elementos colhidos são de molde a se concluir que todos os réus devem ser julgados pelo Tribunal do Júri, pois há elementos suficientes de autoria, não se comprovando os álibis que trouxeram”, disse. “A singela narrativa deles restou, assim, isolada, de modo que a análise aprofundada das provas acerca da participação de cada um deverá ser feita pelo juízo competente.”

Por: Fernando Granato

Fonte: Diário de SP