Depoimentos causam comoção no 2º dia de júri da maior chacina de São Paulo

  • 20 de setembro de 2017
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Com relatos de sobreviventes, testemunhas e familiares, o segundo dia do júri da maior chacina de São Paulo, que terminou com 17 mortos em 2015, teve muito apelo emotivo e até choro de advogado de defesa.

A testemunha que diz reconhecer o PM da Rota Fabrício Eleutério, um dos três réus em julgamento, também prestou depoimento e voltou a apontá-lo como o autor do disparo que o atingiu. A defesa contesta o relato e diz se tratar de uma “testemunha profissional”.

O julgamento recomeçou às 10h, de portas fechadas, com o depoimento de “Elias”, que é testemunha protegida. Em juízo, ele voltou a reconhecer Eleutério, desta vez em poucos segundos e sem precisar de óculos – ao contrário do que ocorreu em audiência preliminar, quando a vítima chegou a urinar nas calças e demorou mais de 9 minutos para apontar o policial que o baleou no braço.

“Elias” é um homem pardo, entre 30 e 40 anos, que voltava de uma partida de futebol na Rua Suzano, em Osasco, quando foi alvejado. Apesar de ferido, ele conseguiu fugir e se esconder embaixo de um veículo. A vitima só foi localizada pelas investigações cerca de uma semana após a série de ataques.

O advogados de defesa de Eleutério, Nilton Nunes, afirmou que a vitima entrou em contradição várias vezes. Entre elas, cita a ausência do relato da fuga em depoimento à polícia. Segundo Nunes, “Elias” também declarou aos jurados que foi por conta própria ao DHPP, enquanto o relatório da investigação diz que ele foi conduzido.

O principal recurso que a defesa espera usar para desmentir “Elias”, no entanto, é o depoimento da testemunha protegida 798, que também falou em juízo nesta terçafeira, 19. Aos jurados, ela disse estar em um bar quando ouviu os disparos e viu que um jovem branco, entre 15 e 17 anos, foi baleado.

“Caso os jurados decidam que ele mentiu, podemos processá-lo por denunciação caluniosa”, afirmou Nunes. Segundo ele, a medida para representar contra “Elias” está sob análise.

Já o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, responsável pela acusação, afirmou que a testemunha 798 caiu em contradição. “Ele já disse que vitima era branquinha, depois que era morena, depois volta pra branquinha.” Também segundo Oliveira, “Elias” passou mal e “quase vomitou” ao depor.

Choro

Ao longo do dia, foram ouvidas nove testemunhas – oito delas sem a presença dos réus. Em dois dos depoimentos o advogado Evandro Capano, que representa o PM Thiago Henklain, fez perguntas chorando. A primeira vez, no depoimento de Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando Luiz de Paula, um dos mortos da chacina. A segunda, no de Gilberto Gonçalves da Silva, pai de Letícia Silva, de 15 anos, a mais jovem e única a mulher a morrer nos ataques.

“Eu tenho um filho, é claro que eu me sensibilizo com esses pais. O que aconteceu foi um absurdo, mas isso não justifica o outro absurdo que é tentar culpar quem não foi responsável, disse Capano. Para o promotor Oliveira, o choro foi “teatro”.

Muito emocionado, o pai de Letícia chorou várias vezes durante seu depoimento. Zilda também chorou ao contar do filho e falou sobre toques de recolher nesta semana, no local onde mora. “Recebi mensagens de WhatsApp e ouvi comentários da vizinhança.”

Um dos depoimentos mais fortes, entretanto, foi o do autônomo Marcos Antonio Passini, um dos sobreviventes do Bar do Juvenal, onde oito pessoas foram assassinadas a tiro. Baleado nas costas, ele conseguiu correr para os fundos do estabelecimento, que estava em obras, e caiu numa vala.

“Acho que foi isso que me salvou”, disse a vítima, que também relatou ter visto o atirador de jaqueta, luvas e touca ninja – por isso, não poderia reconhecê-lo. “Teve pessoas que morreram em cima de mim, tentando escalar a parede.”

Em plenário, ele também disse que, antes da chacina, chegou a reconhecer dois frequentadores do bar em imagens que mostraram na TV o latrocínio de um GCM de Barueri, dias antes. “Essas pessoas já estavam presas”, afirmou. “Não tinha motivo para acontecer isso.”

Medo

Um dos momentos de maior tensão foi com a testemunha Renato Antônio Santos, que não confirmou no Tribunal o depoimento que prestou na Corregedoria da PM.

Na fase de investigação, ele disse que havia levado um “enquadro” da PM na noite da chacina, em uma rua próxima à dos ataques, e que os policiais atenderam a uma ligação durante a abordagem e depois mandaram ele voltar para casa. “Não me recordo”, disse em juízo.

Questionado se ele estava com medo, Santos demorou 10 segundos para responder. “Sim.”

 

Reportagem de Felipe Resk do Estadão Conteúdo, publicado no UOL Notícias