Testemunha chave na condenação de PM envolvido na chacina de Osasco dirá que mentiu

  • 27 de fevereiro de 2018
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‘Gama’, que não compareceu ao júri anterior, deve ser ouvido em julgamento de acusado que começa nesta terça

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

Peça-chave na condenação do soldado da PM Thiago Henklain, a testemunha protegida “Gama”, que não compareceu no júri anterior supostamente por temer represálias, reapareceu após a sentença do policial e, agora, deve relatar aos jurados que mentiu ao fazer uma denúncia anônima contra ele. A testemunha é considerada um “trunfo” pelos advogados de defesa, que pretendem apontar  irregularidades na investigação da chacina.

Na época, a testemunha “Gama” disse à polícia ter ouvido uma briga entre Henklain e a mulher dele, após ela reconhecê-lo, em imagens de TV, como um dos policiais envolvidos nos ataques. Depois, a testemunha, que é tio da mulher do PM, não quis confirmar o depoimento no tribunal. Segundo a promotoria, porque ele estaria sofrendo ameaças.

Mesmo “desaparecido”, “Gama” tornou-se a principal prova contra Henklain que foi condenado a 247 anos, 7 meses e 10 dias de prisão. Dias após a sentença, entretanto, ele voltou a aparecer, protocolou uma carta na Corregedoria da PM dizendo que mentiu e confirmou o conteúdo em um novo depoimento. À Corregedoria, a mulher do PM também negou que tenha brigado com o marido na época.

Na carta, “Gama” afirma que a denúncia é falsa e que teria ficado interessado na recompensa de R$ 50 mil. O valor havia sido oferecido pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) para quem tivesse informações que levassem à prisão de algum suspeito da chacina. Ele não recebeu o dinheiro.

“Venho através desta carta admitir algo (…) fiz uma denúncia falsa sobre ele (Thiago Henklain) pois tive uma desavença com minha sobrinha e sem pensar quis prejudicá-la”, escreveu o tio. “Foi aí que o valor de R$ 50.000,00 cegou meus olhos.”

No documento, a testemunha narra que teria se arrependido da suposta mentira “dois a três meses depois”, mas que teria sido coagido a sustentar a versão inicial. Ele acusa o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira de ter feito “ameaças” de revelar seu nome no plenário, caso ele não fosse ao júri. O promotor nega a acusação.

A reportagem do Estado, que acompanhou o júri anterior, constatou que o nome verdadeiro de “Gama” até chegou a ser citado em plenário em meio a diversas perguntas feitas  para testemunhas e para o réu, mas não viu o promotor dizendo que se tratava da mesma pessoa. Isso foi mostrado apenas aos jurados, através de um papel com o nome dele escrito.

Para justificar a apelação contra a sentença recebida em setembro, a defesa de Thiago Henklain aguarda o resultado do julgamento do PM Victor Cristilder, também acusado de participar da chacina. Ele será levado a júri popular a partir desta terça-feira, 27, no Fórum Criminal de Osasco.

O processo de Cristilder foi desmembrado dos demais após recurso da defesa e vai contar com a presença de “Gama”, que foi arrolado entre as 25 testemunhas previstas.  “O conjunto probatório, todo ele, é muito fraco, a começar por uma testemunha que mentiu. O que dirá as demais provas no final das contas?”, disse o advogado Fernando Capano, que defende Henklain.

Novo cenário. Para a defesa dos outros dois PMs e do GCM, o depoimento de “Gama” dá um “novo cenário”. “Uma informação tão grave serviu para condenar uma pessoa, outras coisas podem ter ocorrido neste processo”, afirmou o advogado João Carlos Campanini, representante de Cristilder. “Isso, na minha opinião, coloca em descrédito toda a investigação.”

Uma possível absolvição de Cristilder também poderia mudar o panorama dos réus já condenados, segundo a defesa. “Essa é uma dedução lógica”, disse Abelardo Julia da Rocha, advogado do GCM Sérgio Manhanhã, que foi condenado a mais de 100 anos de prisão. Contra ele, pesa uma troca de mensagens, via WhatsApp, com o PM que está em julgamento. “A absolvição do Cristilder diretamente diz que o Sérgio Manhanhã é inocente.”

Para a advogada Flavia Artilheiro, que defende o PM Fabrício Eleutério, sentenciado a mais de 255 anos, o depoimento de “Gama” reforça a tese de que teriam sido feitas outras falsas denúncias por causa da recompensa da SSP. Eleutério foi reconhecido por uma testemunha protegida, chamada no processo de ‘Elias’. “Aquela situação acabou vindo à tona por causa de ‘Gama’, mas a origem é a mesma.”

 

Entrevista de Fernando Fabiani Capano para o Estadão. Confira a reportagem no Estado de S. Paulo clicando aqui.